. . . Estanque no oceano sob a forma de farol . . .

" . . . Dos acasos à necessidade - este é o caminho de todo homem problemático; chegar até onde tudo se torna necessário, porque tudo expressa a essência do homem, nada senão isto, mas perfeita e completamente; onde tudo se torna simbólico, onde tudo, como na música, é somente o que significa e significa somente o que é . . . "

Quinta-feira, 25 de Junho de 2009

Nova fonte...

De tanta ausência, saudade me ocorre... Um poema de minha mais nova fonte, o clássico escultor renascentista Michelangelo Buonarroti, na tradução de Jorge de Sena...

Soneto
Michelangelo Buonarroti

Forçoso é que a piedade enfim me venha,
Pra que d'alheias culpas mais não ria,
Seguro em meu valor, sem outro guia,
Alma perdida que de si desdenha.

Não sei que outra bandeira me mantenha
Não vencedor, mas salvo da porfia
Com que o tumulto adverso me seguia,
Se não é Teu poder que me sustenta.

Ó carne, ó sangue, ó lenho, ó dor extrema!
Justo por vós se torne meu pecado
Do qual nasci e os pais que foram meus.

Só Tu és bom: socorra tão suprema
Piedade o meu predito iníquo estado:
Tão perto a morta, e ainda tão longe Deus.

Quinta-feira, 26 de Março de 2009

Online...

Depois de longa ausência virtual, Lenine me ajuda a ser uma pessoa educada no trânsito... O qual, aliás, anda cada vez pior...

Rua da Passagem (trânsito)
(Lenine & Arnaldo Antunes)

Os curiosos atrapalham o trânsito
Gentileza é fundamental
Não adianta esquentar a cabeça
Não previsa avançar o sinal
Dando seta pra mudar de pista
Ou pra entrar na transversal
Pisca aletera pra encostar na guia
Pára-brisa para o temporal
Já buzinou, espere não insista
Desencoste o seu do meu metal
Devagar pra contemplar a vista
Menos peso no pé do metal
Não se deve atropelar cachorro
Nem qualquer outro animal
Todo mundo tem direito a vida
E todo mundo tem direito igual

Motoqueiro, caminhão, pedestra
Carro importado, carro nacional
Mas tem que dirigir direito
Pra não congestionar o local
Tanto faz você chegar primeiro
O primeiro foi seu ancestral
É melhor você chegar inteiro
Com seu venoso e seu arterial
A cidade é tanto do mendigo
Quanto do policial

Todo mundo tem direito a vida
E todo mundo tem direito igual

Travesti, trabalhador, turista
Solitário, família, casal
Todo mundo tem direito a vida
E todo mundo tem direito igual

Sem ter medo de andar na rua,
Porque a rua é o seu quintal
Todo mundo tem direito a vida
E todo mundo tem direito igual

Boa noite, tudo bem, bom dia
Gentileza é fundamental
Todo mundo tem direito a vida
E todo mundo tem direito igual

Pisca alerta pra encostar na guia
Com licença, obrigado, até logo, tchau
Todo mundo tem direito a vida
E todo mundo tem direito igual

Quarta-feira, 11 de Março de 2009

Livremente...

Ausente há mês, deixo-vos o final de um livro que muito me emocionou...

"Na manhã seguinte à morte de Goethe apoderou-se de mim um grande desejo de tornar a ver, mais uma vez, o seu envólucro terrestre. O fiel criado Frederico abriu-me o quarto onde o tinham deposto. Estava deitado de costas, e parecia dormir; profunda paz e firmeza eram os traços que dominavam a expressão do seu rosto, de sublime nobreza. A fronte viril parecia ainda pensar. Queria ficar com uma madeixa de cabelos dele, mas um temoroso respeito impediu-me de a cortar. O corpo jazia nu, envolvido num lençol branco; tinham posto à volta pedaços de gelo para o conservarem fresco, tanto tempo quanto possível. Frederico abriu o lençol; fiquei atônito ante a divina magnificência daquele corpo. O peito forte, espaçoso e saliente; os braços e coxas cheios e harmoniosamente musculados; os pés delicados e da mais pura forma; e não havia em todo o corpo vestígios de gordura, magreza ou decadência. Um homem perfeito, em total beleza, jazia ali ante meus olhos, e o momento de encanto fez-me esquecer até que o seu espírito imortal já abandonara aquela carcassa terrestre. Descansei a mão no coração dele - silêncio profundo reinava por toda a parte - e virei-me para deixar correr livremente as lágrimas, que até então conseguira reter".
(Eckermann)

Sexta-feira, 13 de Fevereiro de 2009

Celebrar...

Um dia chuvoso, sombrio e triste se converte em uma celebração das mais importantes... E nada melhor do que celebrar com Baudelaire...

A Alma do Vinho
(tradução Guilherme de Almeida)

A alma do vinho assim cantava nas garrafas:
"Homem, ó desherdado amigo, eu te compús,
Nesta prisão de vidro e lacre em que me abafas,
Um cântico em que há só fraternidade e luz!

Bem sei quanto custa, na colina incendida,
De causticante sol, de suor e de labor,
Para fazer minha alma e engendrar minha vida;
Mas eu não hei de ser ingrato e corruptor,

Porque eu sinto um prazer imenso quando baixo
À guela do homem que já trabalhou demais,
E seu peito abrasante é doce tumba que acho
Mais propícia ao prazer que as adegas glaciais.

Não ouves retinir a domingueira toada
E esperanças chalrar em meu seio, febrís?
Cotovelos na mesa e manga arregaçada,
Tu me hás de bendizer e tu serás feliz:

Hei de acender-te o olhar da esposa embevecida;
A teu filho farei voltar a força e a cor
E serei para tão tenro atleta da vida
Como o óleo que os tendões enrija ao lutador.

Sobre ti tombarei, vegetal ambrosia,
Grão precioso que lança o eterno Semeador,
Para que enfim do nosso amor nasça a poesia
Que até Deus subirá como uma rara flor!"

Outras Construções